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Infinitudes

Porque ser do contra, também ajuda na resolução dos problemas!

Infinitudes

Porque ser do contra, também ajuda na resolução dos problemas!

30.Mai.14

Vergonha ou Desvergonha

Num canto sentados à mesa, estão 2 engravatados e um desengravatado, mas todos a mesma fisga. Em cima da mesa uns papéis, duas águas e uma garrafa de cerveja.
À minha frente, na fila para comprar pão, um homem que, aparentando vir do trabalho vestido ainda com a roupa “limpa” pelo emprego que tem, esperava a sua vez para ser atendido.
- Quantos pães? Pergunta a funcionária com ar superior!
- Uma dúzia, responde num tom envergonhado!
Atirando com o saco de papel para cima do balcão, a senhora arrogância diz: -um euro e vinte!
O homem, cabisbaixo e um pouco tremolo, não sei se por vergonha ou sentimento de inferioridade, retida do bolso um porta moedas preto (se é que ainda se lhe pode chamar isso) já sem fecho e apenas preso com um fino elástico, e começa a contar as moedas quase todas elas das “negras”. Até que pergunta: a como é cada pão?
Resposta de língua afiada: o mesmo preço de ontem, 10 cêntimos.
- Então se não se importar levava só nove.
- Você é que sabe, mas se tivesse contado logo os trocos dava menos trabalho.
O homem, um pouco envergonhado, lá se foi embora.
Notório foi que toda a gente se apercebeu do sucedido.
Chega a minha vez de ser servido e, enquanto isso, não pude deixar de ouvir o comentário da mesa do canto.
Com ar de altíssimos “mayor” exclamam: Mais um pobre coitado que não tem onde cair morto!
Fiquei pensativo neste comentário… «não tem onde cair morto!» Tem pois, onde todos nós vamos cair, no cemitério.
Mas pior ainda foi ver a expressão facial de escarnio do trio a chamar de «pobre coitado».
Mas pobre porquê? Por gastar os últimos trocos para comprar pão para os filhos. Pobre por trabalhar no duro e ser obrigado a pagar todos os impostos e cortes que os “coelhos” nos estão a impor? Pobre por chegar a casa cansado do trabalho diário duro e ainda ir cuidar da pena horta que lhe traz algum sustento? Pobre por jantar com a mulher e os filhos, ter que deitar cedo para cedo erguer e começar outro dia igual: (trabalhar para alguém como o trio do canto.) Pobre por mimar os filhos com os recursos nulos que tem? Não existe tabletes nem pincarelhos do género, mas existe ELE.
Ou pobres sois vós aí na mesa do canto que nem uma água comprais para casa?
Pobres sois vós que andais sempre de esquema em esquema para não pagar impostos ou roubar o estado, estado esse que somos todos nós!
Pobres sois vós que estais com os vossos filhos em bodas e batizados. Pobres sois vós que nem sabeis qual o ano escolar do vosso filho, porque nunca estais presentes. Pobres sois vós que em vez de contares cêntimos destrocais notas de 50 para poderes apalpar as mamas a umas gajas nessas casas que acabais por trocar pelo jantar com os filhos. Pobres sois vós que quando vos perguntam a idade deles ficais todos engasgados porque não sabeis. Também como poderias saber se quando eles nasceram destrocavas as notas até às cinco da manhã?
Mas mais ricos ou não, um dia quando estiverdes deitados dentro de quatro tábuas envernizadas, iguais às do “pobre”, quando estiveres sem cor e com os lábios colados, frios que nem granizo, mais duros que aço, com os dedos entrelaçados num terço, que até então nunca lhe tinhas posto a mão, na algazarra da espera do funeral haverá de certeza alguém que dirá: Pobre coitado, também lá se foi!...